O Vírus da Saúde Mental

CELULAR

A pandemia de COVID-19 não é a primeira a assolar a humanidade. Outras doenças que marcaram a história mundial podem ser citadas como, dentre outras, a peste negra, cólera, gripe espanhola, gripe asiática, varíola e tifo.

Ainda assim, eu me arrisco em dizer que em 2020 vivemos uma característica por enquanto nova em situações deste nível. Tenho percebido que o coronavírus atinge muitos não apenas provocando a COVID-19 por meio da infecção direta, mas também afetando a saúde mental das pessoas através de uma ferramenta chamada internet.

São diversas as facilidades que a internet é capaz de proporcionar, mas é necessário ficar atento quanto à forma como ela também, se mal utilizada, pode servir de gatilho promovendo quadros de ansiedade, insônia e irritabilidade. Não são poucas as vezes em que, quando indago o motivo de pacientes buscarem atendimento, eles usarem palavras como “angústia”, “medo” e “raiva” proporcionados pelo conteúdo de “informações negativas” advindas através do uso da internet.

Várias pessoas referem então que tem se tornado difícil receber tanta notícia ruim por redes sociais. Ainda assim, cada vez mais me parece não perceberem que permanecem 24 horas ligados no que eu denominaria “vírus da saúde mental” cujo principal meio de contágio não seria o contato direto com alguém infectado, mas a internet através de meios como o celular. E, nesse caso, o que previne não é o isolamento, mas a consciência.

A nomofobia, caracterizada em 2008 num artigo do UK Post Office como o medo que a pessoa sente de ficar sem celular, em muito agora demonstra-se presente. Essa é citada como a fobia da era moderna e pode evoluir com transtorno de depressão, ansiedade e insônia.

Será que, avaliando os textos que você lê, fotos que você vê e vídeos que você assiste diariamente poderia dizer que informações valiosas tem sido adicionadas ao seu cotidiano ou mais frequentemente essas práticas interferem no seu bem-estar e dos seus familiares? O que o celular te traz de informação gera angústia, furor e medo ou você tem conseguido usá-lo como remédio frente a tantos desafios?

Que tal usar esse tempo para avaliar o quanto a internet faz parte do seu cotidiano e de que forma tem contribuído para sua saúde mental? Que tal desligar seu celular por um dia – ou talvez algumas horas apenas – e perceber que seu precioso tempo pode ser melhor aproveitado? A bateria do nosso viver não é eterna – porque não recarregá-la com o que realmente vale à pena?

Publicado por marianamendesdesa

Médica de atuação no cuidado da saúde mental e neurociência focada em profissionais que sofrem de Fadiga por Compaixão. Desde criança dizia que, para alguém ser um bom profissional deveria amar o que faz. Mais tarde, já sendo médica, percebeu como as pessoas que servem aos que sofrem podem ver suas atividades profissionais interferirem positiva ou negativamente em sua qualidade de vida, dependendo da forma como lidam com os desafios diários. Decidiu então trabalhar cuidando dos que cuidam em diversos aspectos da vida humana. Tem como paixão viajar e conhecer diferentes culturas ao lado do seu marido. Graduação em Medicina pela Universidade do Estado do Pará (UEPA), especialização em Psiquiatria pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pelo Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo (IAMSPE), e pós-graduação em Neurociência pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). CRM/SP 205.318

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