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Suicídio entre Médicos e Estudantes de Medicina

Lonely

O jaleco branco não protege o ser humano abaixo dele do suicídio. Pelo contrário, pode a ele gerar maior ideação de tirar a própria vida! Importante leitura, tanto para os cuidadores quanto para os que são cuidados! Vinte anos se passaram desde a publicação deste artigo, mas será que a realidade hoje é diferente?

Suicídio entre médicos e estudantes de medicina

“Numa revisão da literatura disponível sobre suicídio entre médicos, verificamos que em toda parte do mundo a taxa de suicídio na população médica é superior à da população geral. (…) No Brasil, Martins destaca alguns fatores estressantes associados ao exercício profissional: sobrecarga horária, privação de sono, comportamento idealizado — contato intenso e freqüente com a dor e o sofrimento; lidar com a intimidade corporal e emocional — contato com a morte e com o morrer; lidar com pacientes difíceis — incertezas e limitações do conhecimento médico, isto é, o medo do erro médico.”

 

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-42301998000200012&fbclid=IwAR0kFDiznWgt2-H0CcwBc0mKbto1IY99zvzENXAMgkSAcJ3LsjpIa2Pq_Uc

Feliz Dia do Médico. Feliz Dia do Ser Humano.

Médico e paciente

E quando é com você, médico?

 
Recentemente eu, que estudo e me preocupo com os que sofrem de fadiga por compaixão, vivi um determinado momento em que não esperava sentir o mesmo sofrimento. Mas algum tempo depois, a pessoa que mais convive comigo, meu marido, me viu chorando, me abraçou e disse: “isso é fadiga por compaixão”.
 
É, aquela noite era a minha vez. E assim a única coisa que pude fazer era concordar, sem nada falar. 
 
Faltavam apenas 9 minutos para o término do meu plantão, quando apareceu um senhor sorrindo e dizendo: “a doutora vai salvar minha vida”. Todos ao redor sorriam, dizendo que ele, apesar da dor que sentia, fazia brincadeiras enquanto esperava o atendimento.
 
Mal sabia eu que meus 9 minutos se transformariam em quase 2 horas. Ao conversar com aquele senhor, ele revelou um quadro que parecia poder ser aliviado com um simples analgésico. Mas considerando a idade dele e a localização das dores que disse sentir, decidi seguir o protocolo para confirmar que ele não estava infartando antes de liberá-lo.
 
Disse então ao simpático e sorridente  senhor o que seria feito a partir do que havia decidido naquele primeiro momento. Também o avisei que meu plantão havia acabado naquele dia, mas meu colega continuaria a acompanhar seu quadro. Ele então ainda sorrindo agradeceu, sendo levado para colher o sangue para os exames laboratoriais solicitados.
 
Aí, enquanto arrumava minhas coisas para ir embora depois de um longo e cansativo dia só ouvi alguém gritando: “Dra. Mariana, socorro! Ele precisa de ajuda!”. Corri para a sala de espera e encontrei o Sr. J., antes sorridente, agora com dificuldade de respirar e comunicar-se.
 
Levamos ele correndo diretamente para a sala vermelha, onde ficam os pacientes mais graves, e vi a doce senhora esposa do Sr. J. no caminho chorando assistindo nossa correria. Pensei: “depois tenho que voltar pra conversar com ela”.
 
Ao chegar na sala vermelha me informaram que não havia mais leito disponível para a monitorização que aquele querido paciente precisava, e eu já não via muito o que pudesse fazer. Então, me agachei na frente da cadeira onde agora o Sr. J. respirava com a ajuda de um aparelho e segurei suas mãos. Nesse momento percebi que o sorriso dele tinha ido embora, e lágrimas encheram seus olhos ao me perguntar: “Por favor doutora, me diz que eu não vou morrer”. 
 
Engoli a seco e simplesmente disse o que nessas horas precisamos dizer: “fique calmo – estamos cuidando de você”. 
 
Saí daquele ambiente e fui logo falar com a doce esposa do Sr. J., que havia tido uma alta súbita de pressão. Aos poucos fui acalmando ela e outros familiares também, descrevendo o que estava acontecendo e os cuidados necessários, enquanto eles tanto me agradeciam.
 
E eu pensava: “me agradecer porque? Eu simplesmente fiz o que o protocolo manda, e posso ter agora me despedido do sorridente senhor guardando em mim a imagem dele chorando ao segurar minhas mãos”. Mais de uma hora havia se passado e já não tinha pressa de ir embora.
Queria ficar ao lado dele o tempo todo, mas a consciência de que não deveria interferir na conduta do colega que me substituíra e que meu marido estava me esperando lá fora me levaram a tirar o jaleco e buscar minhas coisas. Ainda assim pedi que o colega, se pudesse, me mandasse notícias daquele senhor que chegou nos meus últimos 9 minutos de plantão.
 
Saí do hospital e encontrei o carro em que meu marido estava. Entrei no carro e, ao fechar a porta, abri as janelas das minhas emoções e chorei. Sequer conseguia falar. Só chorei. E foi assim que soube: estou com fadiga por compaixão. Naquela hora percebi que precisava de alguém que segurasse minha mão e dissesse: “sua parte você fez, e ele não vai morrer.”
 
Mas se alguém falasse isso estaria mentindo. Era necessário lembrar: “sua parte você fez, Deus decide o que vai acontecer”. Só que não posso negar: essa verdade doía – como doía!
 
No dia seguinte, ao acordar parecia que tinha levado uma surra. Mas que alegria e alívio da dor ver no meu celular mensagem do colega que enfrentou as horas subsequentes dizendo que a hipótese de infarto do Sr. J.  pôde ser descartada ao longo da noite e ele já estava em casa! Mas… e se não estivesse? A dor da surra demoraria quanto tempo para passar?
 
Por enquanto não consigo responder. Só sei que quem estuda também é vulnerável, e que eu mal posso esperar para ouvir aquela doce voz do Sr. J. contando uma engraçada piada. Foram 9 minutos que se transformaram em horas que ficarão na memória e tentativa de aprender para sempre.
18 de outubro – Feliz Dia do Médico. Feliz dia dos que cuidam e precisam ser cuidados. Feliz dia dos seres humanos. Em meio a isso tudo eu só posso dizer: obrigada, Sr. J.